A história dos sobrenomes criados para filhos fora do casamento na Europa
30/01/2026 09h22 – Atualizado há 1 dia

Durante séculos, a filiação determinava direitos, herança e posição social na Europa. Filhos nascidos fora do casamento eram oficialmente classificados como bastardos ou ilegítimos, o que influenciava diretamente o nome que recebiam.
Para marcar essa condição, muitos territórios criaram sobrenomes específicos. Eles funcionavam como um registro social permanente, visível em documentos, impostos e contratos.
Com o tempo, esses sobrenomes perderam força, desapareceram ou foram incorporados a sistemas de nomeação mais neutros.
Por que sobrenomes especiais foram criados
Na Idade Média, o sobrenome tinha função jurídica. Ele indicava origem, vínculo familiar e legitimidade.
Como filhos fora do matrimônio não podiam usar o nome do pai, surgiram alternativas oficiais para diferenciá-los dos herdeiros reconhecidos.
Esses nomes evitavam disputas legais e deixavam clara a posição social do indivíduo.
Tipos de sobrenomes usados para filhos ilegítimos
Alguns sobrenomes indicavam diretamente a ausência de filiação paterna reconhecida. Outros faziam referência à mãe, ao local de nascimento ou a termos simbólicos.
- Bastard — Usado na França e Inglaterra medieval como marca explícita.
- Fitzroy — “Filho do rei”, comum para bastardos reconhecidos da realeza inglesa.
- Lejeune — Indicava “o mais novo”, muitas vezes associado a filhos fora da linha principal.
- Deschamps — Referência ao campo ou exterior da cidade, sugerindo nascimento fora da casa legítima.
- Espúrio — Forma latina presente em registros eclesiásticos.
- Natural — Termo jurídico aplicado em Portugal e Espanha.
Esses sobrenomes não eram escolhas familiares, mas imposições administrativas.
A marca social por trás do nome
Carregar um sobrenome associado à ilegitimidade significava enfrentar limitações legais. Muitos não podiam herdar bens, ingressar em guildas ou ocupar cargos públicos.
O nome funcionava como um estigma transmitido por gerações, mesmo quando a origem já havia sido esquecida.
Em pequenas comunidades, bastava o sobrenome para definir a reputação de uma família.
O papel da Igreja e do Estado
A Igreja Católica mantinha registros detalhados de batismos, distinguindo filhos legítimos e ilegítimos.
Já os Estados usavam essas informações para fins fiscais, sucessórios e militares.
Essa combinação consolidou o uso de sobrenomes específicos durante séculos.
Como esses sobrenomes desapareceram
A partir do século XIX, reformas civis e mudanças legais reduziram a distinção entre filhos legítimos e ilegítimos.
Leis de igualdade sucessória, registros civis laicos e o fim de privilégios hereditários tornaram esses sobrenomes obsoletos.
Muitas famílias optaram por adotar sobrenomes neutros, maternos ou toponímicos, apagando a origem discriminatória.
O legado nos sobrenomes atuais
Embora muitos desses nomes tenham sumido, alguns sobreviveram com significados ressignificados.
Hoje, raramente se associa um sobrenome à condição de nascimento, mas a história permanece registrada em arquivos e genealogias.
Esses nomes revelam como a linguagem foi usada como instrumento de controle social.
Nomes como reflexo de mudanças sociais
A extinção dos sobrenomes ligados à ilegitimidade reflete uma mudança profunda na forma como a sociedade entende família e identidade.
O nome deixou de ser punição e passou a ser escolha e herança cultural.
Entender essa evolução ajuda a compreender o poder simbólico dos nomes ao longo da história.