A morte do “nome do meio”: estamos abandonando o segundo nome no Brasil?
13/02/2026 13h38 – Atualizado há 12 horas

Durante décadas, o nome composto com dois prenomes foi uma das marcas mais tradicionais da identidade brasileira. Combinações como Maria Clara, João Pedro e Ana Luiza dominaram os cartórios por gerações e criaram um padrão cultural facilmente reconhecível.
No entanto, dados recentes de registros civis e tendências de escolha de nomes indicam uma mudança clara: muitos pais estão abandonando o chamado “nome do meio” em favor de estruturas mais simples ou de sobrenomes duplos. Essa transformação revela muito sobre a evolução cultural, social e estética dos nomes no Brasil contemporâneo.
O auge dos nomes compostos no Brasil
Os nomes compostos se tornaram extremamente populares no Brasil ao longo do século XX, especialmente entre as décadas de 1960 e 1990. Combinações com Maria e João eram quase obrigatórias em muitas famílias, seja por tradição religiosa, homenagem a parentes ou simples costume social.
Nomes como Maria Eduarda, João Victor, Ana Paula e José Carlos eram vistos como elegantes e completos. O segundo nome funcionava como complemento sonoro, identidade familiar e até forma de diferenciação em uma sociedade com poucos nomes principais repetidos.
Essa tradição criou gerações inteiras com nomes duplos, transformando o nome composto em um padrão cultural profundamente enraizado.
A nova preferência por nomes curtos e diretos
Nas últimas décadas, a preferência por nomes curtos e simples cresceu de forma significativa. Nomes como Noah, Theo, Luna, Ravi e Maya refletem uma tendência global por nomes rápidos de pronunciar, modernos e fáceis de registrar em documentos e redes sociais.
Com isso, muitos pais passaram a evitar o segundo nome. Em vez de um prenome composto, optam por um único nome forte acompanhado de sobrenomes duplos, preservando a herança familiar sem tornar o nome excessivamente longo.
Essa mudança também acompanha a estética minimalista atual, que valoriza simplicidade, praticidade e sonoridade limpa.
Sobrenomes duplos ganham protagonismo
Ao mesmo tempo em que o nome do meio perde espaço, os sobrenomes duplos se tornam cada vez mais comuns. Muitos pais preferem registrar filhos com os sobrenomes materno e paterno, reforçando a identidade familiar e a igualdade entre as linhagens.
Assim, em vez de Maria Clara Souza Santos, por exemplo, cresce o número de crianças registradas como Clara Souza Santos ou Theo Almeida Costa. O nome próprio fica mais enxuto, enquanto o sobrenome assume maior relevância.
Esse movimento reflete também mudanças sociais, como a valorização do sobrenome materno e a busca por identidades mais equilibradas e modernas.
Redes sociais e identidade digital influenciam escolhas
Outro fator que contribui para a diminuição do nome do meio é a vida digital. Em um mundo onde nomes precisam caber em perfis, e-mails e domínios, nomes mais curtos e únicos são preferidos.
Pais modernos consideram como o nome será usado em redes sociais, plataformas profissionais e ambientes internacionais. Um nome simples, sem segundo prenome, facilita a memorização e a construção de uma identidade digital forte.
Essa preocupação com a presença online tornou-se um critério relevante na escolha de nomes, algo impensável há poucas décadas.
O nome composto vai desaparecer?
Apesar da queda na popularidade, o nome composto não deve desaparecer completamente. Ele ainda carrega valor afetivo, religioso e tradicional para muitas famílias brasileiras.
Nomes como Maria Alice, João Miguel e Ana Beatriz continuam entre os mais registrados em várias regiões do país, mostrando que a tradição ainda convive com as novas tendências. O que se observa, na verdade, é uma diversificação. O Brasil vive uma fase em que coexistem nomes compostos clássicos, nomes curtos modernos e estruturas com sobrenomes duplos.
Essa transformação revela como os nomes acompanham as mudanças culturais, tecnológicas e sociais, refletindo a forma como as famílias brasileiras constroem identidade e pertencimento.