A origem de “Dos Santos” e “De Jesus” no Brasil Colônia
28/02/2026 15h24 – Atualizado há 2 dias

Os sobrenomes Dos Santos e De Jesus estão entre os mais comuns do Brasil. Presentes em milhões de registros civis, eles carregam uma história profunda ligada à religiosidade, à colonização portuguesa e a processos sociais marcantes do período colonial.
Muito além de sobrenomes religiosos, essas designações também foram associadas a órfãos, crianças enjeitadas e aos chamados cristãos-novos — judeus forçados à conversão ao catolicismo.
Entender a origem de “Dos Santos” e “De Jesus” é mergulhar em uma parte sensível e complexa da história brasileira.
Sobrenomes religiosos na tradição portuguesa
Durante a colonização, Portugal já possuía forte tradição de sobrenomes religiosos. Expressões como “dos Santos”, “de Jesus”, “da Conceição” e “do Espírito Santo” eram comuns e refletiam a influência da Igreja Católica na vida social.
No Brasil Colônia, essa prática se intensificou.
Muitos sobrenomes eram atribuídos no momento do batismo, especialmente quando não havia um sobrenome familiar definido.
A marca dos órfãos e crianças enjeitadas
Um dos contextos mais relevantes para a difusão desses sobrenomes foi o das crianças abandonadas.
Nos séculos XVII e XVIII, era comum a existência da chamada “Roda dos Expostos”, mecanismo utilizado para deixar bebês anonimamente sob cuidados da Igreja ou da Santa Casa.
Essas crianças, sem referência familiar conhecida, frequentemente recebiam sobrenomes religiosos no registro de batismo.
“Dos Santos” e “De Jesus” tornaram-se escolhas recorrentes, pois representavam proteção divina e simbolizavam uma nova identidade cristã.
Assim, esses sobrenomes passaram a carregar, em muitos casos, a marca histórica da ausência de filiação reconhecida.
Cristãos-novos e a adoção de sobrenomes cristãos
Outro grupo associado a esses sobrenomes foi o dos cristãos-novos.
Após a expulsão e perseguição de judeus na Península Ibérica, muitos foram forçados à conversão ao catolicismo. Para demonstrar adesão à fé cristã — muitas vezes sob vigilância da Inquisição — adotavam sobrenomes de forte conotação religiosa.
Sobrenomes como “De Jesus” funcionavam como sinal público de identidade cristã.
No Brasil Colônia, onde a presença de cristãos-novos foi significativa, esses nomes se espalharam e se consolidaram ao longo das gerações.
“Dos Santos”: significado e simbolismo
O sobrenome “Dos Santos” tem origem devocional e faz referência aos santos da Igreja Católica.
Tradicionalmente, também pode estar ligado ao Dia de Todos os Santos, celebrado em 1º de novembro. Crianças batizadas próximas a essa data podiam receber o sobrenome como forma de homenagem religiosa.
Com o tempo, o nome deixou de ter associação exclusiva com órfãos ou conversos e passou a integrar linhagens familiares consolidadas.
“De Jesus”: fé, identidade e estratégia social
“De Jesus” possui significado ainda mais explícito, indicando devoção direta à figura central do cristianismo.
Durante o período colonial, carregar esse sobrenome podia representar proteção simbólica, afirmação religiosa ou estratégia de inserção social.
Ao longo dos séculos, ele se desvinculou de sua possível origem circunstancial e tornou-se simplesmente parte da identidade familiar de milhões de brasileiros.
A evolução histórica desses sobrenomes no Brasil
Com o passar do tempo, “Dos Santos” e “De Jesus” perderam a associação imediata com abandono ou conversão forçada.
Hoje, são sobrenomes amplamente difundidos em todas as regiões do país, presentes em diferentes classes sociais e contextos culturais.
Ainda assim, conhecer sua origem revela aspectos importantes da formação social brasileira, marcada por religiosidade intensa, desigualdades e processos históricos complexos.
Muito além da religião: memória e identidade
Os sobrenomes “Dos Santos” e “De Jesus” são exemplos de como os nomes carregam memória histórica.
Eles refletem práticas da Igreja, políticas coloniais e estratégias de sobrevivência social.
Mais do que simples expressões religiosas, esses sobrenomes fazem parte da construção da identidade brasileira, conectando o presente a capítulos profundos da nossa história.