O Quinto dos Infernos: O que significa a expressão popular?

Por Redação
19/02/2026 08h33 – Atualizado há 3 dias

A expressão “vá para o quinto dos infernos” é amplamente utilizada no português brasileiro como forma de demonstrar irritação, afastamento ou indignação. Apesar de parecer uma referência direta ao diabo ou a algum lugar infernal da tradição religiosa, a origem da frase é histórica e está ligada ao período do Brasil Colônia.

Pouca gente sabe, mas o termo “quinto” não surgiu como uma metáfora religiosa. Ele está relacionado a um imposto real cobrado pela Coroa portuguesa durante o ciclo do ouro no Brasil, especialmente no século XVIII. Esse tributo ficou conhecido como “o quinto”, pois correspondia a 20% de todo o ouro extraído nas regiões mineradoras.

Com o tempo, a cobrança pesada e a fiscalização rígida geraram revolta entre os colonos, fazendo com que o termo passasse a carregar um forte tom de insatisfação popular.

O que era o “quinto” do ouro no Brasil Colônia

Durante o auge da mineração em regiões como Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, a Coroa portuguesa instituiu um sistema de arrecadação para garantir parte da riqueza extraída. Esse sistema determinava que um quinto de todo o ouro encontrado deveria ser entregue ao governo português.

O imposto era rigorosamente controlado. Casas de fundição foram criadas para transformar o ouro em barras oficiais, já descontando o valor devido à Coroa. Qualquer tentativa de esconder ouro ou evitar o pagamento do quinto era considerada crime grave.

A cobrança era tão pesada que se tornou símbolo de exploração colonial. Para muitos colonos, trabalhar nas minas significava enriquecer Portugal enquanto a população local continuava enfrentando dificuldades.

Como o imposto virou uma expressão de revolta

O descontentamento com o quinto do ouro cresceu ao longo do século XVIII. A população via a cobrança como injusta e opressiva, especialmente quando a Coroa aumentava a pressão para garantir arrecadação mínima anual.

Em momentos de tensão, como durante a ameaça da chamada “derrama” — uma cobrança forçada de impostos atrasados — a revolta popular se intensificava. O sentimento de injustiça fez com que o “quinto” se tornasse sinônimo de algo extremamente desagradável.

Assim, mandar alguém “para o quinto dos infernos” era uma forma simbólica de desejar que a pessoa fosse para um lugar tão ruim quanto o destino do ouro confiscado pela Coroa. A expressão carregava o peso histórico da exploração e da indignação coletiva.

Por que a expressão não tem origem religiosa

Apesar de mencionar “infernos”, a expressão não surgiu de crenças religiosas ou da ideia literal de um local demoníaco. O uso da palavra “infernos” serve como intensificador, reforçando a ideia de um lugar distante, ruim ou indesejado.

A parte central da expressão é o “quinto”, que originalmente remetia ao imposto colonial. Com o passar do tempo, o contexto histórico se perdeu e o público passou a associar a frase apenas a um xingamento comum.

Mesmo assim, a origem ligada ao sistema tributário colonial revela como eventos históricos podem influenciar o vocabulário cotidiano e moldar expressões populares.

A permanência da expressão no português brasileiro

Séculos depois do fim do Brasil Colônia, “o quinto dos infernos” continua sendo uma expressão viva no português do Brasil. Ela aparece em conversas informais, literatura, cinema e redes sociais, sempre com sentido de afastamento ou irritação.

A maioria das pessoas utiliza a frase sem conhecer sua origem histórica, o que a torna um exemplo interessante de como a língua preserva memórias do passado. Expressões populares muitas vezes carregam significados antigos que se transformam ao longo do tempo.

Conhecer a origem real de “o quinto dos infernos” ajuda a entender como a língua portuguesa no Brasil foi moldada por acontecimentos históricos e sociais, especialmente durante o período colonial.

Curiosidades linguísticas sobre “o quinto dos infernos”

A expressão é considerada um brasileirismo, pois nasceu no contexto histórico específico da colonização portuguesa no Brasil. Em Portugal, embora existam expressões semelhantes de irritação, o termo não possui a mesma origem ligada ao imposto do ouro.

Além disso, o uso da palavra “quinto” como referência a imposto praticamente desapareceu da linguagem cotidiana, permanecendo apenas em contextos históricos ou em estudos sobre o período colonial.

Hoje, quando alguém utiliza a expressão, dificilmente pensa em impostos ou mineração. Ainda assim, a frase continua carregando, de forma indireta, a memória de um dos períodos mais marcantes da história econômica do Brasil.