Preconceito linguístico no prime time: o que significa?
24/02/2026 11h30 – Atualizado há 9 horas

O preconceito linguístico ocorre quando uma forma de falar é julgada como “errada”, “inferior” ou “feia” com base em critérios sociais e não apenas gramaticais. No prime time — horário nobre da televisão e das grandes mídias — esse fenômeno se torna ainda mais visível.
Expressões populares, sotaques regionais e variações da língua portuguesa muitas vezes são motivo de correção pública, piadas ou críticas. Ao mesmo tempo, determinadas formas de falar, associadas a grupos privilegiados, são valorizadas e até admiradas.
Essa diferença de tratamento levanta uma questão importante: por que corrigimos o português de uns e aplaudimos o de outros?
O que é preconceito linguístico?
Preconceito linguístico é a discriminação baseada na maneira como alguém fala. Ele acontece quando se atribui menor valor a variantes linguísticas usadas por determinados grupos sociais, regionais ou econômicos.
A língua portuguesa, como qualquer idioma, possui variações naturais. Existem diferenças de pronúncia, vocabulário e construção gramatical entre regiões, classes sociais e contextos culturais.
No entanto, a norma padrão — ensinada na escola e usada em documentos oficiais — costuma ser tratada como a única forma “correta”, desconsiderando a diversidade linguística existente no país.
Por que algumas pessoas são mais corrigidas que outras?
A correção pública do português raramente é neutra. Em muitos casos, ela está relacionada à posição social de quem fala. Pessoas em cargos de prestígio, celebridades ou figuras públicas influentes podem cometer desvios da norma padrão sem sofrer o mesmo nível de crítica.
Por outro lado, indivíduos de origem popular, participantes de reality shows ou moradores de determinadas regiões costumam ser mais cobrados e ridicularizados por sua forma de falar.
Isso acontece porque a língua também funciona como marcador social. A forma de expressão acaba sendo usada como critério de julgamento sobre escolaridade, competência ou inteligência.
O papel da mídia no reforço do preconceito linguístico
No prime time, a exposição é maior e as reações são amplificadas. Programas de televisão, debates e redes sociais frequentemente destacam “erros de português” cometidos ao vivo.
Quando essa correção vem acompanhada de deboche ou humilhação, o preconceito linguístico se torna evidente. A língua deixa de ser vista como instrumento de comunicação e passa a ser usada como ferramenta de exclusão.
Ao mesmo tempo, discursos sofisticados ou estrangeirismos usados por figuras influentes costumam ser elogiados, mesmo quando também apresentam desvios da norma padrão.
Norma padrão e variação linguística: qual é a diferença?
A norma padrão é um modelo formal da língua, utilizado em contextos oficiais, acadêmicos e jurídicos. Ela é importante para garantir uniformidade e clareza em determinadas situações.
Já a variação linguística é um fenômeno natural. A língua se adapta ao contexto, à região e ao grupo social. Expressões populares, gírias e construções informais fazem parte da dinâmica do idioma.
O problema surge quando a norma padrão é usada como critério absoluto de valor social, ignorando que a língua falada possui regras próprias e coerência interna.
Corrigir sempre é preconceito?
Nem toda correção configura preconceito linguístico. Em ambientes formais, como provas, documentos oficiais ou textos acadêmicos, o uso da norma padrão é exigido e faz parte das regras do contexto.
O preconceito surge quando a correção tem intenção de desqualificar o falante ou reforçar hierarquias sociais. A crítica deixa de ser técnica e passa a ser julgamento pessoal.
É possível valorizar a norma culta sem desrespeitar a diversidade linguística existente na sociedade.
Por que refletir sobre preconceito linguístico é importante?
Refletir sobre preconceito linguístico ajuda a compreender que a língua não é apenas um conjunto de regras gramaticais. Ela é também expressão de identidade, cultura e pertencimento.
No prime time, onde a visibilidade é ampla, o impacto dessas correções públicas pode reforçar estigmas e desigualdades.
Reconhecer a diferença entre adequação linguística e discriminação é fundamental para promover respeito e inclusão. Afinal, a língua portuguesa é plural, diversa e dinâmica.
Resumo: por que corrigimos o português de uns e aplaudimos o de outros?
Corrigimos o português de uns e aplaudimos o de outros porque a língua também reflete relações de poder. A forma de falar pode ser usada como critério de distinção social.
O preconceito linguístico acontece quando a variação natural do idioma é tratada como falha moral ou intelectual. Entender esse fenômeno é essencial para promover uma visão mais justa e consciente sobre o uso da língua portuguesa.