O uso do “mesmo”: Por que em certas frases ele confunde tanto?
25/02/2026 09h22 – Atualizado há 1 dia

Você já entrou em um elevador e leu a frase: “Verifique se o mesmo está parado neste andar”? Essa construção é muito comum em avisos, comunicados internos e até em redações escolares.
Apesar de parecer formal e até elegante, o uso de “o mesmo” como pronome é alvo constante de críticas por parte de gramáticos e professores de português.
Mas afinal, qual é o problema? O “mesmo” está errado? Ou é apenas uma questão de estilo?
“Mesmo” não é pronome pessoal
Na norma-padrão da língua portuguesa, a palavra mesmo pode funcionar como:
- Adjetivo: “Ele fez o mesmo trabalho.”
- Advérbio de intensidade: “Ela mesma resolveu o problema.”
- Pronome demonstrativo com valor enfático: “Ela mesma confirmou.”
O problema surge quando “o mesmo” é usado para substituir um substantivo já citado, como se fosse um pronome pessoal equivalente a “ele” ou “ela”.
Na frase do elevador — “Verifique se o mesmo está parado neste andar” — o termo “o mesmo” está sendo usado para retomar “o elevador”. É justamente esse uso que é considerado inadequado em textos formais bem escritos.
Por que gramáticos criticam esse uso?
A crítica acontece porque o português já possui pronomes próprios para retomar termos anteriores, como:
- ele
- ela
- este
- esse
Do ponto de vista da clareza e da economia linguística, dizer “Verifique se ele está parado neste andar” é mais direto e natural.
O uso de “o mesmo” nesse contexto é visto como artificial, burocrático e desnecessariamente rebuscado. Muitos gramáticos classificam essa construção como vício de linguagem típico da linguagem administrativa.
De onde surgiu esse costume?
O uso de “o mesmo” como substituto de pronome pessoal se popularizou em textos jurídicos, administrativos e técnicos.
Durante muito tempo, acreditou-se que essa forma tornava o texto mais formal e impessoal. Assim, expressões como:
- “Encaminhe o documento e protocole o mesmo.”
- “O candidato deverá apresentar o formulário e assiná-lo no campo indicado no mesmo.”
acabaram se espalhando por avisos públicos, comunicados empresariais e até placas de elevador.
No entanto, formalidade não é sinônimo de qualidade textual.
O uso é proibido?
Não se trata exatamente de proibição absoluta, mas de inadequação estilística.
Em textos formais bem redigidos, recomenda-se evitar “o mesmo” como pronome anafórico. A substituição por pronomes pessoais ou a reestruturação da frase costuma gerar resultados mais claros e elegantes.
Compare:
- “O aluno entregou o trabalho. O mesmo foi avaliado.”
- “O aluno entregou o trabalho, que foi avaliado.”
A segunda construção é mais fluida e natural.
Quando “mesmo” está correto?
É importante deixar claro que “mesmo” não é um erro em si. Ele está correto quando exerce sua função adequada na frase.
Exemplos corretos:
- “Ela mesma fez o relatório.”
- “Os mesmos argumentos foram apresentados.”
- “Estamos no mesmo prédio.”
O problema não está na palavra, mas no uso indevido como substituto automático de pronomes pessoais.
Como evitar esse erro em redações?
Para evitar o uso inadequado de “o mesmo” em textos escolares, acadêmicos ou profissionais, siga três orientações simples:
- Prefira pronomes pessoais como “ele” ou “ela”.
- Reescreva a frase para evitar repetição desnecessária.
- Revise o texto em busca de construções burocráticas.
A clareza deve ser sempre o principal critério na escrita.
Portanto, da próxima vez que você ler “verifique se o mesmo está parado neste andar”, já saberá: a frase não está gramaticalmente absurda, mas carrega um vício de formalidade excessiva que a norma culta moderna recomenda evitar.