O uso do mesmo como pronome pessoal: o vício de coesão que penaliza a nota da redação

Por Redação
26/06/2026 11h24 – Atualizado há 3 dias

A busca por elementos de coesão que evitem a repetição de palavras na redação dissertativa costuma levar muitos candidatos a uma armadilha gramatical clássica: o emprego da palavra “mesmo” com função de pronome pessoal. Utilizada de forma inadequada para substituir termos como “ele”, “ela”, “dele” ou “dela”, essa construção configura um vício de coesão e um desvio de estilística grave. Em exames de alta concorrência, o uso incorreto desse conectivo afeta diretamente os critérios de avaliação gramatical e de progressão textual estabelecidos pelas bancas examinadoras mais rigorosas do país.

A análise técnica de milhares de produções textuais revela que a substituição de pronomes pessoais por “mesmo” é um reflexo direto da linguagem jurídica antiga e de vícios da oralidade transportados para a escrita formal. Em vez de conferir sofisticação ao texto, a estrutura gera ambiguidade e demonstra falta de domínio dos mecanismos de coesão anafórica. Uma argumentação de alto nível exige precisão e clareza; o preenchimento do período com termos inadequados interrompe o fluxo de leitura e reduz os pontos do candidato na competência de microestrutura.

Compreender a real função morfológica dessa palavra é o primeiro passo para eliminar o erro de forma definitiva e garantir a harmonia sintática da sua argumentação. Ao longo deste guia técnico, identificamos os desvios mais comuns encontrados em redações contemporâneas e detalhamos as estratégias práticas de reescrita para substituir o termo por pronomes adequados ou reestruturações completas da frase, atendendo aos padrões exigidos pela norma-padrão.

A função gramatical do termo e o erro de coesão

Na norma-padrão da língua portuguesa, a palavra “mesmo” possui valor estritamente demonstrativo ou reforçativo, nunca pessoal. Ela deve ser empregada para indicar identidade (ex: “o mesmo argumento”), conformidade (ex: “fizeram o mesmo que prometeram”) ou como elemento de reforço para sujeitos (ex: “os próprios cidadãos resolveram a questão”). O termo funciona como adjetivo ou advérbio, o que significa que ele precisa modificar um substantivo ou uma ação, e não ocupar o lugar de um pronome substantivo de terceira pessoa.

O erro na proposta argumentativa acontece porque o escritor tenta criar uma ligação entre as frases usando o termo de maneira isolada. As bancas examinadoras penalizam severamente esse hábito porque o termo não possui carga semântica para resgatar um antecedente de forma limpa, gerando truncamento sintático e empobrecimento do repertório lexical do candidato.

Guia prático de substituição: eliminando o vício nas frases

Para garantir uma estrutura textual simétrica e limpa, é fundamental mapear as frases onde o desvio costuma passar despercebido. A tabela a seguir demonstra as falhas frequentes cometidas em textos argumentativos e as respectivas correções ideais utilizando pronomes oblíquos, possessivos ou a omissão do termo.

Estrutura com desvio de coesão✅ Construção correta e simétrica❌ Exemplo de aplicação inadequada no texto
Mesmo substituindo o sujeito“O governo criou o projeto e este visa reduzir a desigualdade.”“O governo criou o projeto e o mesmo visa reduzir a desigualdade de renda.”
Mesmo como objeto direto“O juiz analisou o caso e o encaminhou para o tribunal.”“O juiz analisou o caso e encaminhou o mesmo para o tribunal competente.”
Mesmo em relação de posse“A escola acolheu o aluno e discutiu suas demandas sociais.”“A escola acolheu o aluno e discutiu as demandas do mesmo com os pais.”
Mesmo após preposição“O Diretor convocou o docente e entregou o documento a ele.”“O Diretor convocou o docente e entregou o documento ao mesmo.”
Mesmo em orações coordenadas“A lei foi aprovada, mas ela precisa de ajustes fiscais urgentes.”“A lei foi aprovada, mas a mesma precisa de ajustes fiscais urgentes.”

Estratégias de reescrita e revisão do rascunho

A melhor estratégia para eliminar essa falha durante o processo de rascunho é realizar o mapeamento visual do texto em busca da palavra. Sempre que encontrar o termo, verifique se ele está acompanhado de um substantivo. Se a palavra estiver isolada ou precedida de artigo (como “o mesmo” ou “ao mesmo”), a estrutura está incorreta e deve ser alterada imediatamente.

Na maioria dos casos, a solução mais elegante na dissertação é a omissão do termo ou o uso do pronome relativo. Em vez de escrever “o projeto foi aprovado e o mesmo gerou empregos”, prefira “o projeto foi aprovado e gerou empregos” ou “o projeto aprovado gerou empregos”. A simplificação da estrutura sintática elimina o ruído de comunicação e confere maior dinamismo e fluidez ao parágrafo argumentativo.

FAQ: Perguntas frequentes sobre o uso do mesmo

A famosa frase dos elevadores “Verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar” está correta?

Não. A frase clássica colada nos elevadores contém um erro crônico de concordância e coesão, pois utiliza o termo para substituir o substantivo “elevador”. A forma ideal de acordo com a norma gramatical seria: “Verifique se o elevador está parado neste andar” ou “Verifique se ele se encontra parado neste andar”.

Existe alguma situação em que a palavra varia em gênero e número?

Sim. Quando funciona como adjetivo demonstrativo com sentido de idêntico ou próprio, a palavra deve concordar em gênero e número com o substantivo ao qual se refere (ex: “elas mesmas fizeram o relatório”, “as mesmas causas geraram os mesmos efeitos”). O erro reside apenas no uso isolado com função de pronome pessoal.

Por que esse uso é aceito em textos jurídicos mas penalizado na redação?

O meio jurídico utiliza a expressão de forma tradicional por força do hábito e do conservadorismo da linguagem do direito. No entanto, os manuais modernos de redação jurídica e todas as bancas examinadoras de exames oficiais já condenam a prática, classificando-a como uma pobreza estilística que deve ser evitada em qualquer texto dissertativo atual.

Conclusão

A precisão vocabular e a escolha correta dos conectivos são elementos decisivos para demonstrar maturidade escrita e garantir uma nota alta nos critérios de coesão textual. Evitar o uso inadequado do termo como pronome pessoal limpa o texto de clichês da oralidade, permitindo que a banca avaliadora foque exclusivamente na consistência dos seus argumentos e na organização das suas ideias.

O segredo para consolidar essa habilidade técnica e eliminar os vícios de linguagem é o treino constante focado na reescrita de períodos, garantindo que cada conectivo empregado cumpra com perfeição o seu papel sintático na defesa da tese.